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A partir do século xvi eruditos franceses passaram a se interessar pelo Brasil. Tal interesse começa com o episódio da França Antártica na baía do Rio de Janeiro. Jean de Léry publica então o primeiro “clássico” sobre o Brasil, a Histoire d’un voyage faict en la terre du Brésil (1578). A partir de André Thevet e de seu oponente protestante, a França trouxe uma contribuição decisiva para a formação da imagem que a sociedade brasileira construiu de si mesma ao longo da sua história. No início do século xvii, essa primeira aventura é seguida de um outro fracasso, o da França Equinocial, em São Luís do Maranhão.
Desenvolve-se então o que Mario Carelli, historiador das relações culturais franco-brasileiras chamou o “olhar distante”. Com o século xix e a missão artística francesa junto ao rei de Portugal em 1816, o movimento dos eruditos e doutos vai se intensificar. Várias obras sobre a história do Brasil aparecem então na França: as de Alphonse de Beauchamp (em 1815 e 1824), de Hippolyte Taunay (1822), e de Ferdinand Denis (1825). Infelizmente nenhum desses trabalhos foi reeditado. No campo das ciências humanas, são as trocas proporcionadas pela criação da Universidade de São Paulo (usp), em 1934, que vão dar um novo impulso às pesquisas francesas. Georges Dumas (1866–1946), a pedido de seu amigo Júlio de Mesquita Filho, diretor do jornal O Estado de S. Paulo, convida ao Brasil um grupo de jovens professores franceses para fundar a Universidade de São Paulo. Se a sociologia, com Claude Lévi-Strauss e Roger Bastide, e a geografia, com Pierre Monbeig, são as disciplinas que mais se beneficiaram do convite da usp, também a história vai tirar proveito desse impulso com a presença de Fernand Braudel, de 1935 a 1938, mesmo se ele escreverá pouco sobre o Brasil, já que sua presença coincide com a elaboração de La Méditerranée au temps de Philippe II.
O pós-guerra é marcado pela emergência de personalidades tão díspares quanto Frédéric Mauro, especialista de história econômica que publicou vários títulos, entre os quais La formation économique du Brésil: de l’époque coloniale aux temps modernes (1974), Kátia de Queirós Mattoso, autora da obra fundamental Ser escravo no Brasil: séculos XVI – XIX (1979), Jean Roche, especialista do Rio Grande do Sul (L’ad-ministration de la province du Rio Grande do Sul de 1829 à 1847 d’après les rapports inédits du président du Rio Grande do Sul devant le Conseil Général, puis l’Assemblée Législative Provinciale, 1961), ou ainda Pierre Verger, mais conhecido por seus trabalhos fotográficos, que publicará em 1966 sua tese magistral sobre o Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo do Benin e a Bahia de todos os Santos; dos séculos XVII a XIX.
Esses investigadores deram um impulso à pesquisa histórica, cujo interesse permanece distribuído de maneira desigual pelos cinco séculos da história do Brasil. Bastante rica sobre a “invenção do Brasil”, a bibliografia, inexistente sobre o século xvii, é mais lacunar sobre os séculos xviii e xix. Excelentes traduções permitem ao leitor francófono captar a riqueza da história do Brasil durante esse período, como as obras de Afonso Arinos de Melo Franco sobre a indianidade e de José Murilo de Carvalho sobre e política sob o Império. Apesar do fluxo permanente dos textos de “história imediata” e à exceção das raras sínteses como os trabalhos de Armelle Enders, o Brasil contemporâneo suscitou poucos trabalhos históricos marcantes. Sem dúvida isso se explica por lacunas editoriais tanto quanto pela insuficiência dos efetivos da pesquisa: desde os anos 1930, apenas uma centena de trabalhos “brasilianistas” foram apresentados em história nas universidades francesas, segundo o recenseamento do Centre de recherche sur le Brésil contemporain. É também o caso das traduções. Muitas das figuras eminentes da pesquisa histórica sobre o Brasil, que se trate de Luis Felipe de Alencastro (não obstante, professor na França) ou de Evaldo Cabral de Melo, especialista do Nordeste, não têm edição francesa de seus trabalhos.
Na geografia, a situação é um pouco diferente. Desde a primeira tese universitária sobre o Brasil, defendida em 1823 por Auguste Prouvençal de Saint-Hilaire : Voyage dans l’intérieur du Brésil, la province cis-pla-tine et les missions du Paraguay, os estudos de geografia franceses sobre o Brasil ocupam uma posição de primeiro plano. Como para a história e a sociologia, as relações estabelecidas em torno da usp foram determinantes. Em particular, deve-se lembrar a posição eminente, reconhecida tanto no Brasil como na França, de Pierre Monbeig (1908–1987) que, após sua passagem por São Paulo, vai se tornar diretor do Institut d’Amérique latine de l’Université de Paris e, finalmente, diretor das ciências humanas no cnrs. Ele publicou Pionniers et planteurs de l’État de São Paulo (Armand Colin, 1952) e iniciou gerações de pesquisadores através de seu “Que sais-je?” dedicado ao Brasil. A outra grande influência é a de Josué de Castro (1908–1973), médico de formação, que se tornou especialista sobre os problemas da fome e cuja grande obra, Geografia da fome : o dilema brasileiro, pão ou aço, de 1947, foi publicada em 1964 nas edições do Seuil. Josué de castro, exonerado após o golpe de Estado de 1964, morreu no exílio em Paris. Devemos citar igualmente Michel Rochefort, que, professor no Rio e em Recife, desempenhará um papel importante na difusão no Brasil das idéias e métodos de pesquisa da geografia francesa das “redes de cidades”. Atualmente, com personalidades como Martine Droulers e Hervé Théry, a geografia ocupa uma posição legítima na abordagem do território brasileiro.
Em volume global, é certamente a etnologia que constitui a principal rubrica da biblioteca francófona sobre o Brasil. No entanto existe uma forte polaridade da pesquisa na matéria em torno dos índios do Brasil, vestígio profundo da influência exercida durante décadas por Claude Lévi-Strauss. Ele tem 26 anos quando parte para lecionar na Universidade de São Paulo. Em Tristes Trópicos, Lévi-Strauss conta como, estudante de filosofia, muito rapidamente se sentiu repelido por esta disciplina, que lhe pareceu como uma ginástica intelectual dessecante. Daí o interesse dirigido à sociologia, mas também à etnografia, cuja descoberta, decisiva, ele fez no início dos anos trinta ao ler o livro já antigo de Robert Lowie, Primitive society. Desde a sua chegada no Brasil, Lévi-Strauss começa a estudar o folclore e as festas populares em pequenas localidades nos arredores de São Paulo. Aproveitando-se de suas primeiras férias na universidade, organiza uma expedição etnográfica ao Mato Grosso, nas tribos Caduveo (hoje se escreve Kadiwéu) e Bororo. Nos anos que seguirão, ele estudará outros povos, especialmente os Nambikwara. Em 1948, publica seu primeiro livro La Vie familiale et sociale des Indiens Nambikwara. Claude Lévi-Strauss relatou fartamente essas viagens ao interior da floresta amazônica, ao encontro de povos dos quais ele se esforça para reconstituir o sistema econômico e a organização social, os modos de vida e de pensamento, os costumes e as crenças. Encontra ali matéria para análise: “Eu diria que as sociedades que a etnologia estuda, comparadas à nossa grande, às nossas grandes sociedades modernas, são um pouco como sociedades “frias” em relação às sociedades “quentes”, como relógios em relação à máquinas a vapor. São sociedades que produzem extremamente pouca desordem, isso que os físicos chamam de “entropia”, e que têm uma tendência a se manter indefinidamente no seu estado inicial, o que aliás explica que para nós elas se pareçam como sociedades sem história e sem progresso ”. Numa outra entrevista, mais recente, Claude Lévi-Strauss pôde sublinhar: “O Brasil representa a experiência mais importante da minha vida, ao mesmo tempo pela distância e o contraste, mas também porque determinou minha carreira. Sinto, em relação a esse país, uma dívida muito profunda ”.
Após as pesquisas de Lévi-Strauss, a universidade francesa estará rica de pesquisadores sobre os índios da Amazônia. Como aconselhava Leroi-Gourhan, o etnólogo deve “se tornar como estrangeiro ao seu próprio meio”. Ora, a partir dos anos 1930, restavam apenas duas partes do mundo nas quais ainda havia culturas desconhecidas: a Nova Guiné e a América do Sul. Trinta anos mais tarde esse interesse permanece válido: em 1969–1970 começa a construção da estrada Transamazônica. E em função disso, uma dezena de novas tribos são descobertas.
Esse interesse científico é acompanhado muitas vezes de uma lógica militante. Alfred Métraux, outro grande iniciador francês já assinalava: “Através de meus trabalhos, procurei salvar a fisionomia des-ses últimos sobreviventes de uma raça que outrora teve uma expansão extraordinária na América”. Nos anos 1960–1970 poucos etnólogos acreditavam de fato no futuro dos índios. Sua população era então estimada em 60.000 ou 80.000 indivíduos, enquanto deviam ser entre 2 e 6 milhões no momento da descoberta do Brasil, em 1500. Hoje, depois da assistência médica, a tomada de consciência coletiva e as organizações de proteção aos índios, 350.000 indivíduos viveriam nas pequenas localidades, perto de 700.000 pessoas tendo se declarado índios no rencenseamento de 2000. Os etnólogos têm então participado de um movimento de informação e de pressão para que se arranje um lugar para essas comunidades que restam.
Do lado da reflexão sobre a sociedade, Roger Bastide (1898–1974) ocupa uma posição iminente tanto na França quanto no Brasil. Professor titular de filosofia, em 1938 ele se vê convidado a um posto de professor de sociologia nessa jovem universidade criada em 1934. Imediatamente à sua chegada, Bastide se dedica à leitura dos sociólogos brasileiros, e a partir de 1939 surgem numerosos artigos e resenhas sobre o tema (quase um por semana, entre 1939 e 1945). Em 1940 é publicado Psicanálise do Cafuné que, aplicando a análise psicanalítica a um objeto sociológico, abre um novo campo: a psiquiatria social. No início de 1944, Bastide realiza uma primeira viagem de estudos no Nordeste, durante a qual vai freqüentar o candomblé, e dividir sua paixão com Pierre Verger, que ele conheceu em 1946. Roger Bastide formou uma geração de sociólogos: uma corrente influenciada igualmente pelo marxismo, que às vezes é chamada de “escola de São Paulo”, com personalidades como Antônio Candido ou Florestan Fernandes. Tendo trabalhado, à época, numa tese em sociologia sobre a escravidão dos negros no sul do Brasil, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso dá o seu testemunho: “Bastide nos abria horizontes culturais. Falando sempre em francês nas suas aulas…, ele nos punha em contato com a literatura sociológica tradicional, e não só, mas também com a psicanálise, a introdução do psicodrama na minha sociologia, as representações coletivas, as teorias de pesquisa quantitativa ”. Bastide retorna a França em 1951 e publica duas obras fundamentais saídas de suas teses: O Candomblé da Bahia e As religiões africanas no Brasil.
A presença desses universitários franceses contribuiu para o reconhecimento, a partir do pós-guerra, dos grandes sociólogos e autores brasileiros como Gilberto Freyre, mas talvez deu início a uma certa fatiga. Gilberto Freyre (1900–1987), por exemplo, não recebeu muitos favores, no que diz respeito a traduções francesas, além do seu clássico Casa Grande & Senzala. No Brasil o autor continua polêmico, sendo acusado de ter produzido uma obra mais literária do que científica, e também de ter aprovado o golpe de Estado militar de 1964. Com respeito ao conteúdo, nos anos 1950 e 1960, a concepção da relação, senão tranqüila, ao menos complexa entre senhores e escravos foi vivamente criticada por autores como Florestan Fernandes. Em seguida uma forte crítica marxista se desenvolveu, cujo representante mais ilustre é Jacob Gorender (O escravismo colonial, São Paulo, Ática, 1978). Porém, há alguns anos assiste-se a uma redescoberta de Freyre, com numerosas reedições. Gilberto Freyre recusava de fato os modelos e sem dúvida estava enganado, diferentemente de muitos ensaístas brasileiros, ao optar por uma visão otimista (alguns dirão angélica) da sociedade brasileira. Casa Grande & Senzala parte de uma auto-análise que se transforma em análise social. A obra é fundada sobre as observações feitas a partir da juventude do autor, nascido em Recife em 15 de março de 1900 e formado nas universidades americanas do Texas e, depois, de Columbia. Gilberto Freyre centrou sua obra na análise do espaço doméstico, tanto nesse seu primeiro livro como em Sobrados e mucambos, obra não traduzida. Do ponto de vista da história das idéias, Freyre antecipa o desenvolvimento da história cultural. Lucien Febvre, co-fundador dos Annales, é o autor de um prefácio elogioso para a edição francesa traduzida por Roger Bastide. Fernand Braudel afirmou ter encontrado em Freyre um dos seus inspiradores e lhe consagrou algumas análises críticas. Roland Barthes fez uma recensão entusiasta do livro à ocasião de sua publicação.
Mais ainda do que Gilberto Freyre, a contribuição de Sérgio Buarque de Holanda (1902–1982) demorou para encontrar um lugar nas prateleiras das livrarias francesas. E no entanto Raízes do Brasil é de 1936. Sua tese de 1957, que será publicada com o título Visão do Paraíso — os motivos edênicos no descobrimento e na colonização do Brasil continua inédita em francês. Em 1969, Sérgio Buarque (pai do músico e romancista Chico Buarque) retira-se voluntariamente de suas funções de professor da Universidade de São Paulo como protesto contra o recrudescimento da ditadura militar e será, em 1980, um dos membros fundadores do Partido dos Trabalhadores (pt). Sérgio Buarque mostra que no Brasil predominam as relações do tipo familiar. É esta impossibilidade do brasileiro de se desfazer dos laços de família para se tornar um cidadão que faz dele o “homem cordial”. Figura generosa, mas que para confiar em alguém deve primeiro conhecê-lo. Uma vez transposta a barreira, as relações se tornam estreitas, como atesta
o uso abundante do sufixo diminutivo “inho”. Não há uma distinção clara entre o público e o privado. O Brasil é uma sociedade governada por laços afetivos entre os indivíduos. Para o autor, a democracia brasileira sempre foi um “mal-entendido” e ele clama por uma revolução que possa pôr um fim aos vestígios da história colonial. Além de Gilberto Freyre e de Sérgio Buarque de Holanda, é de se lamentar que o leitor de língua francesa não possa tomar conhecimento de outra figura dominante da vida intelectual do Brasil da segunda metade do século xx, o pensador marxista Caio Prado Júnior (1907–1990). Seu livro, publicado em 1942, Formação do Brasil contemporâneo exerceu uma influência marcante em toda uma geração de historiadores e de sociólogos.
A bibliografia a respeito dos temas de sociedade é rica e diversificada. Duas questões chamaram e chamam a atenção dos pesquisadores e dos editores: o fênomeno das favelas, essas aglomerações de habitações improvisadas de uma extensão e de uma morfologia especificamente brasileiras, e o carnaval (melhor seria dizer os carnavais, de tanto que difere o do Rio das formas que ele toma no Nordeste) como espelho da sociedade brasileira. Em compensação, muitos temas não são abordados, como é o caso das crianças de rua, um tema, contudo, corrente na pesquisa norte-americana. À exceção remarcável das edições Métailié, que empreenderam a publicação em francês do ciclo de conferências coordenado por Adauto Novaes, a riqueza do pensamento dos intelectuais brasileiros de hoje não é sentida na bibliografia disponível.
Jean-François Chougnet
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