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France-Brésil / Literatura
 

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A recepção da literatura brasileira na França


Johan Heilbron e Gisèle Sapiro já demonstraram muito bem : as línguas do mundo constituem um sistema de comunicação hierarquizado, o que se verifica no fluxo das traduções. Existem línguas dominantes e línguas dominadas. O inglês é atualmente a língua hipercentral (50 % das traduções a partir dela). Seguida de línguas centrais: francês (10 %), alemão; e das línguas semiperiféricas: espanhol, italiano ; o resto — árabe, chinês, português — se situa abaixo de 1 %. O fluxo de tradução é, portanto, independente da extensão da língua nacional. A regra diz que quanto mais uma língua é dominante, menos se traduz para essa língua. O sistema anglófono é bastante autocentrado, como foi por muito tempo o sistema francês. Nesses países se traduz menos do que na Itália. A França traduz mais literatura brasileira do que os países anglo-saxões.
Sabe-se também que as literaturas dos países outrora dominados, para serem reconhecidas, devem alcançar a consagração numa capital cultural internacional. A república mundial das letras , para citar o livro de Pascale Casanova, durante um longo tempo foi governada por Paris. Foi ela que internacionalizou o “boom latino-americano” e Borges. A Holanda descobriu outros escritores latino-americanos que não tiveram consagração internacional. A edição obedece às suas próprias exigências: expectativa do público, mediadores e conselheiros ou agentes literários informados, leitores especializados e, antes de mais nada, tradutores de qualidade.
Os obstáculos brasileiros são aqui manifestos: uma língua “rara”, durante muito tempo não-institucionalizada no ensino, uma insularidade geográfica e cultural diante das vinte Américas hispânicas que por muito tempo os ignorou, poucas relações editoriais com a antiga metrópole — que não se equivale ao que Barcelona representa para o mundo hispano-americano —, na verdade duas literaturas que se ignoram ; inexistência de uma verdadeira colônia brasileira instalada em Paris, ao contrário dos vizinhos hispanófonos cuja literatura se impôs na Europa e no mundo, e que tem um vasto público na sua língua.
As relações com a França são fáceis de delimitar: duas experiências coloniais breves e abortadas. A França antártica no século xvi, e a França equinocial no início do século xvii, das quais nada resta nos fatos, mas razoavelmente, talvez, no imaginário. A presença brasileira na França, a longo termo, poderia ser definida pelo ritmo francês de abertura ao outro: assim, do século xvi e do impacto do descobrimento, sem grandes ecos na poesia ; em contrapartida, é seminal na descoberta do Outro, inaugurando, de Montaigne às Luzes — e o século xviii é um grande século de abertura —, a tradição que, para não aprofundar muito, reduzimos ao Bom Selvagem ; e períodos franco ou eurocentrados como o século xvii. Esse filão primitivista se es-tende ao longo de nossa literatura de Montaigne ao romantismo e, mais adiante, até o surrealismo : a arrogância colonial é inseparável do surgimento do relativismo crítico, primeiro e decisivo abalo das certezas coloniais e, inseparavelmente, utopia de um reencantamento do mundo. O Brasil aparece ao mesmo tempo como o remorso (colonial) e o desejo (mítico) de uma incompletude francesa. É essa veia exótica e primitivista que a longo prazo trabalha o imaginário francês. Ela constitui o horizonte de expectativa do leitor francês diante da alteridade brasileira, simultaneamente seu fundamento e, por isso mesmo, seu limite. Na dialética do Mesmo e do Outro, a política oficial, na origem do interesse mais ou menos ativo e feliz por esse país tão distante geopoliticamente, trabalha a ideologia do Mesmo, a noção extensiva de latinidade. A grande irmã latina vai instrumentalizar esta noção como propulsora de sua difusão com a III República, por razões internas e externas, à época dos imperialismos coloniais e da divisão do mundo. Essa redução ao Mesmo, portanto, converte o Brasil e sua literatura a uma espécie de França periférica e anula a alteridade brasileira inclusive na sua dimensão universalista (Machado de Assis, celebrado mas não lido) ou vanguardista, tidas como repetição dos modelos centrais. Assim será preciso esperar a década de 1980 para que Machado de Assis e os modernistas dos anos vinte — Mário e Oswald de Andrade — sejam traduzidos, lidos (?), inadvertidamente conhecidos. As traduções “oficiais”, sob a égide do Instituto de Cooperação Internacional, antepassado da Unesco, publicam Nabuco ou Rui Barbosa; são traduzidos os diplomatas ou gente de bom trânsito nos círculos adequados — Afonso Celso, Graça Aranha, Afrânio Peixoto —, mas quem lê essas obras? O principal obstáculo para o Brasil é a ausência de intermediários qualificados, dos “passeurs” — à exceção de Valery Larbaud, cujo apostolado será tão comovente quanto inócuo, entre outras coisas por causa da ausência ou da incompetência de tradutores inspirados. Uma literatura só pode passar como um conjunto — caso do boom hispano-americano — se ela é sustentada por todo o sistema; o resto pertence a manifestações isoladas e freqüentemente sem eco, porque não contextualizadas, como é o caso de Machado de Assis, traduzido desde 1910 mas descoberto setenta anos mais tarde.
A partir de 1930 ocorre uma mutação cultural e uma transformação do paradigma na França, por razões internas e externas: crise da razão ocidental, emergência de tropismos primitivistas na arte, na etnologia, na psicanálise, trabalhando as arcaicas profundezas antropológicas e estéticas. O horizonte de expectativa francês trabalha a Alteridade e o Brasil não mais como duplo mas como contra-imagem da França, sua diferença. A veia exótica brasileira, constante na subliteratura, volta-se para a literatura do Nordeste e para o romance social, especialmente Jorge Amado. O agente de transmissão é a literatura engajada e a Internacional comunista que legitima e internacionaliza sua obra.
Mas o sucesso de Amado não pode se reduzir à sua instrumentalização política. Então se tentará reduzi-lo ao seu aspecto exótico, e, mais tarde, erótico-populista. Nosso propósito aqui não é estético mas descritivo. A recepção de uma literatura ou de um escritor estrangeiro, assim como as influências literárias, responde a necessidades internas, a um horizonte de expectativa específico onde a qualidade da obra importa pouco, ou nada, mas reclama a interpretação. Por que esse interesse por Jorge Amado e o romance nordestino, e esse desinteresse por Machado de Assis e o modernismo brasileiro ? Não é a qualidade das obras que é preciso interrogar, mas as expectativas do leitorado. Se a literatura é uma relação fantasiada com o real, a função utópica do romance é compensar a incompletude francesa ; é a alteridade brasileira que seduz, e que não se reduz à natureza tropical, ao enigma do índio ou à vitalidade do negro. Diante de uma certa literatura francesa da desconfiança, esgotando-se em psicologismo, minimalismo, narcisismo, neoclassicismo ou formalismo, o romance nordestino afirma sua fé no relato, sua confiança no romance, sua entrega ao lirismo, sua força telúrica, sua dimensão épica, sua vontade de testemunho social e político, “a voz do sangue”, nas palavras de Cendrars a respeito de José Lins do Rego. Bahia e Pernambuco, as duas tetas da literatura brasileira, ele dizia, contra os modernistas de São Paulo que o acolheram tão generosamente. O Brasil é mesmo a contra-imagem do modelo francês: “O romance do sul”, segundo a expressão de Milan Kundera, encontra ali seus leitores, os mesmos de Rushdie, de Chamoiseau, de García Marquez.
É preciso diferenciar os autores lidos — Amado — e os autores que têm um papel no sistema literário — Borges, Cortázar, Paz. Machado de Assis é dado como referência por Susan Sontag, por exemplo, ou por Carlos Fuentes. Mas sua fecundidade é restrita na França. Podemos colocar Clarice Lispector nesse campo? No seu caso, a transmissão se faz através da literatura feminista que ela jamais tencionou representar; Clarice encontrou na França um passeur importante em Hélène Cixous e é uma referência incontestável para uma parte da literatura feminina, e não só. Certamente trata-se do único escritor brasileiro que teve uma fecundidade e uma posteridade literária, mes-mo se no início a obra teve sua interpretação um tanto orientada. É um dos raros casos — ou o único — de inclusão de um texto brasileiro em um certo sistema francês — mas à margem, num subconjunto literário que se reivindica à margem, e que apesar de tudo ela consegue transcender.
Há, portanto, dois pólos: o do grande leitorado (Amado) e aquele das instâncias de legitimação (Clarice). São dois nomes canônicos cada um em seu extremo. E o que existe entre os dois? O teatro é quase desconhecido, independentemente da obra de Nelson Rodrigues. O caso da poesia é específico : público leitor reduzido em todo lugar, na sua própria língua, e problemas de tradução. Ninguém que tenha recebido na França a consagração de um Neruda, de um Borges, um Paz ou um Lezama Lima. Carlos Drummond de Andrade foi (às vezes mal) traduzido. O pouco que se conhece da poesia se refugia em revistas, que muitas vezes são capelas ou guetos. O concretismo soube por vezes habilmente confiscar toda a palavra poética brasileira, mas a radicalidade da experiência reteve alguns teóricos e poucos leitores. Sempre se pode encontrar algumas edições de autor, mas somos obrigados a lamentar que nenhuma coletânea de Bandeira esteja mais disponível e que as antologias de João Cabral de Melo Neto (na verdade, ainda apenas um projeto) e de Ferreira Gullar se concretizem tão tarde. Seria preciso citar outros nomes. Orides Fontela, Ana Cristina Cesar, Hilda Hilst, felizmente traduzidas.
Seria preciso, talvez, interrogar a singularidade da poesia brasileira, longe das grandes correntes ocidentais, inclusive as sul-ameri-canas e portuguesas: um certo esquematismo formal, uma evidente reticência às imagens. Grandes nomes : Bandeira, Drummond, João Cabral, Murilo Mendes, como ocorre aos maiores, exilados e enterra-dos em suas idiossincrasias.
Talvez fosse preciso assinalar aqui a ausência de uma forte política ativa de auxílio à tradução por parte de organismos brasileiros oficiais ou estabelecidos? Três manifestações oficiais: as Belles Étrangères (1987), o Brasil no Salão do livro (1998) e o Ano do Brasil na França (2005) serviram como propulsores ou trampolim. Uma política editorial de “grandes lances” só é frutífera na continuidade e a longo prazo.
O estudo da recepção deve se interrogar sobre os sucessos de alguns, esses acolhimentos generosos, e o fracasso de outros que, no entanto, são tidos como canônicos em seu país, vide modernistas. Nem Oswald nem Mário de Andrade encontraram seu público, mesmo que fosse restrito a uma elite ; nem Osman Lins, e Graciliano Ramos apenas um pouco mais do que os outros. O estudo da recepção remete, em última análise, à representação do país receptor: suas expectativas simbólicas, seus fantasmas, seus pressupostos. A impregnação do modelo nordestino na França não se limita à ficção, seu telurismo, sua generosidade por vezes verborrágica. Os tropismos dos france-ses mais avisados — Lévi-Strauss, Roger Bastide, que lecionou em São Paulo durante décadas —, afastaram-se dos trabalhos de sociologia ou de história que então seus colegas do sul escreviam e se dedicaram ao estudo do índio ou do negro. A geografia mítica do Brasil francês é essencialmente circunscrita ao Nordeste e à Amazônia ; as manifestações desse Ano do Brasil na França comprovariam. Não se trata de forma alguma de complacência exótica. Jorge Amado recusara ser publicado na prestigiosa coleção da Croix du Sud, que Roger Caillois dirigia na Gallimard e que editou principalmente escritores e ensaístas nordestinos: Graciliano Ramos, Gilberto Freyre, ao lado de Borges ou Sabato. A recepção da literatura é predeterminada pela imagem do país recebido tal como ele aparece no espelho do país receptor. Não vamos aqui perder tempo definindo o tipo realmente de leitor de que se trata: o “verdadeiro” leitor? o leitor implícito? ou comprometido? Os brasileiros às vezes se queixam dessas imagens e dessas leituras. Mas os camponeses normandos de Maupassant ou os personagens de Pagnol também formaram uma certa imagem da França no exterior, onde Hervé Bazin foi mais lido do que o Nouveau Roman.
Toda recepção de uma literatura estrangeira dá margem a mal-en-tendidos ; o lugar de Poe na França e o de Corbière na Inglaterra ilustram muito bem. A leitura de Machado de Assis, para nós no início do século xx um pálido discípulo de Anatole France, ganha um outro viés quando hoje o relemos à luz de Dostoievski. A vertigem da alteridade pode até passar na leitura alegórica de Clarice Lispector, mas passa mais dificilmente no éthos brasileiro da Amazônia ou do sertão, de Euclides da Cunha ou Guimarães Rosa ; a cultura oral, que é a matriz dessa literatura, confere sua sedução aos romances de Amado e sua difícil apreensão da obra de Guimarães Rosa. A veia amazônica e nordestina retém ainda o leitor francês, mas parece menos inovadora. O excesso e a desmesura, que são constitutivos de nossa imagem brasileira, tomam um outro rumo numa literatura urbana da violência (Rubem Fonseca, Patrícia Melo, Paulo Lins), garantindo assim continuidade e ruptura no nosso horizonte de espera, mutação da “selvageria” do Brasil canibal, nossas primeiras imagens, enquanto que a nostalgia das origens, nossa fantasia recorrente, primitivista e amazônica, se transforma em nostalgia, não mais do espaço, mas do tempo e da memória, em Milton Hatoum (Relato de um certo oriente; Dois irmãos).
A recepção de uma literatura estrangeira deve dar conta deste fenômeno, sem a priori estético, desfazendo as hierarquias de alta e baixa literatura, com uma preocupação puramente descritiva, e, se possível, explicativa. Jorge Amado foi o escritor brasileiro mais traduzido. Hoje seu sucesso mundial é ofuscado pelo de Paulo Coelho. O primeiro cultivava sua diferença brasileira e nordestina. Paulo Coelho, sob todos os aspectos, pertence a uma outra ordem: literatura “internacional”, onde o Brasil não aparece nem como cenário nem como personagem; a obra estaria mais vinculada à formatação típica dos best-sellers internacionais, mergulhando em uma mística ecumênica e uma língua neutra, ao contrário do pitoresco linguajar baiano e seu sincretismo dionisíaco. Literatura de “importação-exportação comercial”, já disseram. Se os clichês têm sempre uma função, positiva ou negativa, porque redutora, suscetível de domesticar a alteridade, um pouco do imaginário brasileiro ainda poderia brotar des-ses livros desterritorializados: terra de beatos, de seitas evangélicas e do espiritismo, onde um francês, Allan Kardec, consegue ser ainda melhor profeta do que em seu país.

Pierre Rivas et Michel Riaudel

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