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France-Brésil / Artes
 

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Uma bibliografia em francês que diz respeito à História das Ar-tes no Brasil, agrupando todas as artes, das artes “primeiras” às artes plásticas atuais, da arquitetura à música, da fotografia ao cinema, é a ocasião para compreender quais são os interesses que o Brasil desperta.
Na verdade, isso começa pelos “clichês” veiculados há décadas : samba e bossa nova para a música, índios e arquitetura dita barroca, Brasília e paisagens. Criadores, tornados tanto mais célebres porque trabalharam ou moraram na França, levaram os editores a publicar regularmente suas obras : é o caso, por exemplo, de Oscar Niemeyer ou de Sebastião Salgado. Um movimento artístico destacado pela imprensa, ainda que pontual como o Cinema novo, necessariamente tem repercussões editoriais, mesmo se ele é mais centrado numa personalidade marcante, como Glauber Rocha. Há, enfim, os desbravadores que, à maneira de Lévi-Strauss em antropologia, abriram novas vias do conhecimento, ou como Germain Bazin, grande historiador de arte que fez os franceses descobrirem, durante os anos cinqüenta, o Aleijadinho e a arquitetura religiosa do Brasil — o que vai ter um peso decisivo no reconhecimento internacional desse imenso tesouro, e que terá impacto até no Brasil.
À exceção dessa arquitetura religiosa dos séculos xvii e xviii, a História da arte no Brasil ainda permanece bastante desconhecida na França. Em relação a todas as publicações em língua portuguesa, e também em língua inglesa, que apareceram nas últimas três, ou mes-mo quatro décadas, a propósito do surgimento das cidades coloniais, da arquitetura civil, da arquitetura militar, do mobiliário, da decoração interior, da escultura, da ourivesaria, da pintura do século xx, a bibliografia em língua francesa é pobre, apesar da impulsão que lhe foi dada por alguém como — mais uma vez — Germain Bazin, seguido por Yves Bottineau, ou não obstante a sensibilização para a qual muito mais recentemente contribuíram algumas exposições surpreendentes. As obras dizendo respeito à América latina em geral, ou à arte portuguesa, oferecem resumos bastante superficiais de tudo isso ou repetem os lugares-comuns lidos por aí. Falta absolutamente uma obra séria sobre a atualidade artística no Brasil, a despeito da importância da Bienal de São Paulo, e quaisquer que sejam os esforços de tal ou tal exposição concernindo um punhado de artistas. O catálogo Modernidade, que estabelecia, por assim dizer, a cronologia das artes plásticas no Brasil no século xx, é doravante difícil de encontrar e, de qualquer maneira, precisaria de uma atualização. Esse recenseamento dos catálogos de exposições incluído nessa seção mostra, em contrapartida, o interesse regular pelas artes indígenas, nos limites da etnologia e da antropologia.
Cruzando as questões sociológicas e geopolíticas (ver nossa sessão “Ciências humanas”), o tema da Cidade comporta também uma dimensão estética. Brasília, por exemplo, constitui um caso excepcional de criação de uma nova capital, sobretudo num país do tamanho do Brasil. As obras de Oscar Niemeyer no território francês atraíram naturalmente, elas próprias, a atenção para esse arquiteto. Outro alvo privilegiado, as grandes cidades são objeto de estudos, teses — e mesmo guias turísticos. Apenas mencionamos aqui os álbuns fotográficos que demostram uma verdadeira postura artística. Sobre este ponto, um desejo : que se reedite a versão Francesca do Guia de Ouro Preto escrito pelo grande poeta Manuel Bandeira, que foi publicado em 1948 e que é praticamente impossível de se achar.
A Fotografia é fonte de numerosas publicações. Sem reter os álbuns que de maneira por demais evidente são destinados a empresas exclusivamente turísticas, nós nos concentramos nos grandes fotógrafos e na fotografia histórica, esta excepcionalmente bem servida por exposições e publicações suscitadas pelo ano « Brasil, Brasis », fenômeno bem-sucedido mas demasiado recente.
O Cinema brasileiro, introduzido na França primeiro pela música do filme O cangaceiro (1953), permanece em grande parte circunscrito ao Cinema novo que os Festivais de Cannes revelaram bem no início dos anos sessenta. Cobrindo a história cinematográfica brasileira desde as origens até os anos oitenta, a obra fundamental organizada por Antonio Paranaguá e publicada pelo Centre Pompidou se sobressai como uma exceção. A crítica e o público francês admiram sem restrições as obras de Glauber Rocha, de Nelson Pereira dos Santos, que os circuitos de cineclubes propagaram abundantemente. Após um período menos proveitoso, novos cineastas, como Walter Salles por exemplo, tornam-se felizmente conhecidos do público francês a partir dos anos noventa. Mas é então através das revistas, principal-mente, que circulam as críticas e análises de suas obras.
As Telenovelas, esses folhetins televisivos dos quais os brasileiros se tornaram mestres e que certos canais franceses difundem, começam a interessar os editores. Mas falta, por exemplo, um trabalho sobre a importância das grandes redes de televisão no Brasil, uma síntese que permitisse compreender melhor a sociedade para a qual elas produzem e transmitem.
Em matéria de Música brasileira, antes de mais nada são os estereótipos que são divulgados : por um lado a música popular, e, no que diz respeito à música erudita, Heitor Villa-Lobos. É verdade que a importância da música popular brasileira é incontestável e que ela influenciou até o jazz americano e a música erudita francesa de um Darius Milhaud. A discografia é muito vasta e a bibliografia segue, por assim dizer, os interesses discográficos. No entanto, impelidos pelos “barroquistas” e o entusiasmo pela música barroca em geral, um certo número de gravadoras começam, enfim, a fazer com que se descubra o extremamente rico patrimônio musical do Brasil composto desde o fim do século xvii. A bibliografia, esta permanece essencialmente ligada aos gostos tradicionais. Nada, por exemplo, sobre a ópera brasileira. Se Carlos Gomes (1836–1896) é um compositor cujas obras são executadas e gravadas nos Estados Unidos, na Itália e nos países do Leste, os dicionários de música franceses nem mesmo o mencionam. Uma história da música erudita brasileira seria, portanto, muito bem-vinda.
Finalmente, sem tratar das obras dramáticas nessa seção (ver “Literatura”), escolhemos, contudo, de indicar algumas obras sobre as Artes do espetáculo, já que Augusto Boal, que passou uma longa temporada na França, tem publicado vários livros aqui, e que a dança brasileira interessa cada vez mais o público francês.
Mesmo se a regra de nossa obra é indicar livros disponíveis, essa seção, mais do que qualquer outra, exigia que mencionássemos alguns títulos indispensáveis mas fora do comércio. Entre bibliotecas e os saldos de livrarias, o leitor pode ter a esperança de lê-los algum dia. Esse trabalho de formiga, por sua vez, os bibliotecários, os alfarrabistas, os pesquisadores, não se absterão de fazer.

Pierre Léglise-Costa

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