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O Brasil pela via dos livros
O Ano do Brasil na França ofereceu repetidas vezes a ocasião
de lembrar a longa e rica história que liga a França às terras
brasileiras. Ela se cinge desde o século xvi, em relações fecundas
onde o livro ocupa já o seu lugar : André Thevet, e mais ainda
Jean de Léry e Michel de Montaigne… Será reforçada a partir do século
xix, para até hoje não cessar de se intensificar, de se aprofundar,
de se equilibrar. Aqui não é o lugar de reescrever a história detalhada
desses laços. Mas de sugerir que uma tal bibliografia do Brasil em
língua francesa não é somente um catálogo de títulos. Que é isso,
claro, e um pouco outra coisa, se se quer efetivamente pôr sua consulta
em perspectiva. Tentemos aqui abrir o leque de utilizações dessa bibliografia.
Um guia prático
A primeira vocação desta publicação, cuja iniciativa e mérito são devidos à Associação para a difusão do pensamento francês, é de ser uma
ferramenta, para os bibliotecários, documentalistas, pesquisadores,
curiosos, leitores e agentes interessados, por diferentes razões, pelo
Brasil dos livros… Enquanto “guia”, esse volume assume seu caráter
seletivo, retendo as referências que seus diversos autores julgaram as
mais significativas, afastando certas repetições, renunciando à exaustividade.
Ter podido escolher assim em meio a um vasto conjunto é por si só um sinal de vitalidade editorial. Contudo, longe de ser
restritiva, essa seleção repertoria ao todo várias centenas, perto de
mil obras, entre livros, cd e filmes — já que era legítimo que uma tal
empreitada incluísse a excepcional produção musical e cinematográ-
fica brasileira. O comentário dos autores, tão preciso quanto possível
e rebalizado pelas introduções intermediárias, auxiliará o neófito a
precisar o conteúdo de cada referência e a fornecer alguns indicativos
que ajudem a situá-la.
Prático, o catálogo fornece as informações técnicas elementares
indispensáveis, limitando seu recenseamento ao que está atualmente
disponível. Assim, nós nos reportamos apenas à última edição, no
caso de obras várias vezes reeditadas, ou passadas de uma coleção
a outra. A regra da disponibilidade foi transgredida para algumas raras referências maiores, cuja consulta sobre o tema pareceu incontornável.
De resto, foi muitas vezes a custo que nos vimos obrigados
a deixar de assinalar tal tradução, tal pesquisa, cuja menção, em todo
caso, apenas teria conduzido a uma outra frustração : a dos nossos
leitores de não poderem chegar até a obra. Para esses “esquecidos”
da edição, existem outros instrumentos, como o repertório dos Livros
brasileiros traduzidos na França, regularmente atualizado por Estela dos
Santos Abreu, ou os catálogos das bibliotecas especializadas.
No fim das contas, é uma espécie de inventário que se desenha.
Não restituição objetiva de uma realidade exterior: a do Brasil, da
situação de sua literatura, da sua pesquisa ou da pesquisa francesa
consagrada ao Brasil, dos estudos brasileiros…, mas imagem engajada
dos olhares que ela engaja. Por essa razão ela merece que se faça alto e
que se tome o tempo para comentá-la, e daí tirar, conforme o caso,
algumas lições.
Números
Algumas (boas) questões a colocar para esse catálogo? As primeiras vêm em desordem ao espírito: a edição em língua francesa sobre o Brasil vai bem? Ela dá conta fielmente da diversidade, da realidade brasileira? Permite sair dos clichês que seriam o destino da imprensa, do audiovisual, das pessoas mal informadas ou demasiado apressadas? O Brasil pode se considerar bem representado na edição france-sa? Tais interrogações são fundadas, legítimas, mesmo se sua formulação pode ser discutida. Certas estatísticas respondem de maneira tranqüilizadora. A França já traduzira várias obras brasileiras, desde os anos 1820, quando a Inglaterra publicou sua primeira tradução, em 1886. E em 1994, ainda a título de comparação, os países anglófonos tinham traduzido três vezes menos livros brasileiros do que a França. Outro indicador: a progressão constante ao longo do tempo dos títulos traduzidos em francês, a partir do século xix. Até a primeira guerra mundial, o ritmo é em média de um livro a cada dois anos, para passar a um por ano no entre-guerras, e decolar progressivamente a partir dos anos 1950, até anos faustos onde o volume de traduções vindo do Brasil se aproxima da vintena de títulos. É assim que nove a cada dez traduções do Brasil em francês são posteriores a 1945.
Porém, quando esses dados são confrontados ao espaço crescente que a edição francesa concede ao estrangeiro, o Brasil figura como não mais do que uma gota d’água. Em 1994 ainda, o mercado editorial francês publicou 9 000 romances, dos quais um terço de inéditos. Naquele ano as editoras francesas adquiriram os direitos de 1 347 títulos anglo-americanos, 89 do domínio germânico, 58 do espanhol, 14 para o português. Além disso, no terreno dos números seria necessário poder contabilizar as tiragens, as vendas, ou seja, saber em que medida o livro “brasileiro”, traduzido do Brasil ou a ele consagrado, encontra um público. E relativizar ainda, lembrando que o sistema francês de distribuição encoraja no início do processo a inflação de títulos, sem garantir no final um mínimo viável de leitores para as novidades colocadas à disposição.
Na verdade, a ordem quantificável permite apenas descrever muito parcialmente a situação. Ela dá a ilusão de dados absolutos quando a imagem tomada é, na maioria das vezes, apenas relativa. Diz um pouco do como, nada do por que. Também não pode bastar a informação que ela traz, nem uma aproximação demasiado bipolar, maniqueísta ou positivista, na qual a formulação da questão termina por ocultar uma parte do objeto que ela busca atingir. Assim, se perguntar se o retrato do Brasil que transparece da edição em língua francesa é fiel ao original supõe que se parta de uma realidade dada, objetiva, mesurável, que o livro, o cinema, o disco, os meios de informações, etc. teriam a responsabilidade de expressar. É ocultar um complexo jogo de valores e de desejos pesando tanto sobre a escolha da imagem “fonte” quanto sobre a obtida no final. É esquecer que toda mídia constrói a realidade ao mesmo tempo que a reproduz, melhor : que é, ela própria, uma de suas componentes. Ao Brasil vivido, no fundo aos “Brasis” — o plural escolhido pelos comissariados do Ano do Brasil diz tanto da riqueza quanto da prudência —, acrescentam-se a consciência de que a nação tem dela mesma, suas estratégias de imagens (a sedução da diferença? a eficácia do moderno?), as expectativas e as carências francesas, um contexto histórico, ideológico… enfim, uma imensidão de fatores eventualmente ultrapassando o quadro estritamente franco-brasileiro, que importa mais assinalar e compreender do que julgar.
Terra de clichês
Deste ponto de vista, o primeiro clichê sobre o Brasil, seríamos tentados a afirmar, é que o Brasil (real) é vítima dos clichês (necessariamente falsos). Nesse plano há sempre boas vontades se oferecendo para destruí-los : Não falemos mais do Brasil futebol ou carnava! A intenção é louvável se se trata de abrir o horizonte, de não isolar o outro em exclusividades lúdicas, festivas, vistas como fúteis, de escapar a um destino que a festa “brasileira” dada em 1550, quando da entrada real de Henri II na cidade de Rouen, teria selado. E é absurda se se trata de apagar dimensões muito vivas da sociedade brasileira. A prova disto é fornecida pela referência, aqui, de obras apaixonantes sobre esses temas.
Na verdade, o estereótipo está menos no tema do que no seu tratamento. O clichê, imagem parada, em duas dimensões, não é necessariamente “falso” ; é redutor, e desde logo, efetivamente enganoso, se não se vai além. No melhor dos casos o clichê é incompleto, uma imagem inacabada. Faltam-lhe o movimento e a profundidade do campo. O primeiro para restabelecer as nuanças, a dinâmica, as evoluções históricas, o outro para inscrever o instantâneo em uma paisagem, uma “geografia”. Até uma idéia justa é ameaçada de se desviar para o clichê se ela se congela e se repete à exaustão. Um clichê, em certa medida, é uma idéia preguiçosa, que deixou de pensar. Portanto a melhor proteção contra o clichê não é tanto combatê-lo frontalmente (muitas vezes com o risco de apenas substitui-lo por novos estereótipos), mas se perguntar o que o estabelece e alimenta, num permanente questionamento de nossas certezas.
A mesma atitude pode ser adotada com respeito a essa bibliografia: não somente se perguntar se a “paisagem editorial” aqui fotografada é justa, fiel, mas também o que a motiva e a estrutura: seus fundamentais, sua própria história…
Terra de selvagens
Essa conheceu várias fases, que são como tantos estratos se empilhando geologicamente, e que de quando em quando afloram de novo em função das dobras do terreno. A era das descobertas foi dominada pela temática do selvagem, suscitando tremor, terror, curiosidade proto-etnográfica, fascinação ou reflexão filosófica. O “Brasil” canibal, ainda não ingressado na escrita, fornecia material para es-crever. Mas será que à época da cisão da Reforma os europeus tinham consciência que na sua indignação aterrorizada diante da idéia de ser comido entravam também, como demonstrou Franck Lestringant, os termos de debates que lhes eram próprios, como aquele sobre a transubstanciação…?
Essa temática do “bárbaro” vai conhecer avatares, que não podemos confundir inteiramente entre eles. A despeito de filhações evidentes, a abordagem de Montaigne, espécie de contrapartida a uma civilização cristã em plena guerra civil, não é a de Lévi-Strauss, escrita nas reviravoltas do colonialismo e com a consciência moderna nostálgica das origens. O conflito barbárie x civilização, longe de ser um privilégio do olhar estrangeiro, ganhará sentido no próprio Brasil, em várias oportunidades. É o caso por exemplo, na virada do século xix para o século xx, sobre um modo épico e trágico, por Euclides da Cunha : solidário da vocação “progressista” republicana, ele descobre que aquele caráter missionário pode mascarar a incompreensão do outro. Ou seja, que a barbárie talvez nem sempre está do lado que se pensa que ela está. Duas décadas depois, Oswald de Andrade reivindicará num riso estridente a antropofagia cultural. Lá, era o selvagem que mudava de campo, aqui é o valor associado ao termo que se põe ao contrário, passando do negativo ao positivo: o escritor modernista, ele, compreendeu o partido que se podia tirar de um clichê. Conhecemos o sucesso de sua fórmula, por sua vez ameaçada pela naturalização : a cultura brasileira seria por natureza antropófaga, como se as outras não o fossem. E de onde viria então a cultura francesa, por exemplo? Foi dada por antecipação? É fruto de uma geração espontânea?
A verdade é que no século xvi e depois, apoiados no binômio natureza x cultura, a anedota e seu gosto da sensação convive com uma sincera abertura ao outro, a expressão de fantasmas, o inventário que toma posse, a utopia como avesso ou ideal de si. Essas atitudes não cessaram, desde então, de alimentar a escritura francesa do Brasil. Não é esta que privilegiamos aqui, ao menos para a literatura, preferindo abrir todo o espaço para os textos que atravessaram o Atlântico. Mas é preciso lembrar as páginas que daí resultam, algumas admiráveis, em Cendrars, Claudel, Péret, Bernanos… ou mais recentemente nos romances de Eric Orsenna, Patrick Grainville, Jean Sou-blin, Jean-Christophe Rufin… A verdade é que os escritores franceses não param de descobrir o Brasil, prova encorajadora de que no Brasil continua a existir algo a ser descoberto.
Missões e modelos
Se ao longo da história o fluxo de interesses se manteve unindo a França e o Brasil, a despeito do relativo eclipse correspondente a intensificação da implantação colonial portuguesa, ele nem sempre se manifestou de forma recíproca, longe disso. Antes mesmo da proclamação da independência do Brasil, em 1822, a coroa portuguesa instalada no Rio inaugura o período das “missões” recorrendo, em 1816, aos artistas franceses para fundar localmente uma escola de be-las-artes. Essa cooperação de mão única se estenderá pelo menos até os anos 1930, particularmente com a célebre participação francesa na criação da Universidade de São Paulo.
Mas para além da França dos missionários, o século xix é também para o Brasil o tempo da escritura dos mitos de fundação, o que exige colocar à distância, um mínimo que seja, a antiga metrópole portuguesa e, como forma de compensação, inspirar-se em “modelos” tomados dos ingleses e, sobretudo, dos franceses. As obras de Chateaubriand, Hugo, Dumas, Musset, depois Zola… exercem sua influência nos escritores brasileiros que as adaptam ou delas se afastam. Esta lógica da invenção de uma literatura nacional através das matrizes exógenas é paradoxal apenas na aparência: não foi diferente com nossos poe-tas bem franceses do Renascimento, bebendo nas fontes italianas. Seja como for, a época das construções identitárias — work in progress para qualquer um — é a ocasião para a França se restabelecer e reforçar sua presença. Livrarias e editores (Didot, Garnier…) enviam seus representantes comerciais ao Rio e às províncias, abrem sucursais, imprimem os brasileiros em Paris…
Se esta assimetria foi naturalmente a regra das épocas pioneiras, durante muito tempo ela favoreceu preconceitos e suspeitas do lado francês, que não queria ver nessas transposições nada que não fosse a pura imitação, pálida cópia ou escritura de segunda mão, esquecendo que é o destino de toda literatura, de toda obra, ser devoradora da experiência dos outros, não levando em conta a originalidade das problemáticas e das soluções apresentadas pelos brasileiros. Na verdade, o “esplendor” francês era duplamente ofuscante: seu etnocentrismo orgulhoso saía reforçado desta posição de referente e o fazia buscar aquilo que no Brasil era suscetível de se parecer a ele. Assim, pouco após a morte de Machado de Assis, uma homenagem lhe foi prestada na Sorbonne, no dia 3 de abril de 1909. As intervenções francesas reverenciaram então, no estilo do romancista, o caráter equilibrado e irônico, próprio ao “latino” que por direito lhe cabia: “Para todo um setor da inteligência francesa, o Brasil reduz-se à latinidade e seu maior escritor aparece aqui como uma espécie de Anatole France ou de Renan.
Compreende-se melhor a vigilância dos brasileiros, desde então, preocupados com a eqüidade nas relações bilaterais e sensíveis às distorções que sua imagem poderia sofrer. Do lado francês, é preciso crer que os pressupostos negativos ainda não foram todos derrubados, a julgar pelo destino medíocre reservado à literatura do Brasil do século xix, exceto Machado, ou a seu modernismo. O impulso iniciado a partir de 1979 com as primeiras traduções de Mário e depois de Oswald de Andrade teve, para o primeiro, alguma continuação, enquanto que o segundo aguarda ser reeditado. Após ter ignorado durante meio século um movimento farto que deu ao patrimônio literário mundial magníficas ramificações, tem-se o sentimento que apenas a metade do caminho do reconhecimento foi percorrido. Tal fato não é somente a lamentar do ponto de vista brasileiro, é também deplorável para os franceses que aí teriam, intelectual e egoísticamente falando, tudo a ganhar.
Nortes magnéticos
O entre-guerras verá iniciar uma dupla inflexão, conseqüência a cada vez de uma auto-suficiência contestada : por um lado o olhar se desvia da busca do semelhante em direção a valorização da alteridade ; por outro, a edição francesa se abre mais “espontaneamente” aos escritores brasileiros. Vários indícios confirmam o primeiro movimento, entre os quais a relação de mútua fecundação entre os brasileiros e Cendrars. Independente do que tenha dito depois, Oswald de Andrade vai ser marcado pelo encontro com o suíço, que voltará, ele próprio, várias vezes ao Brasil, em suas viagens e mais ainda em seus escritos. Mas o que retém Cendrars não é tanto o país em plena expansão quanto suas margens, suas profundezas, seus “diferenciais” e seus extremos. Com colorações bastante diversas, uma mesma corrente vai levar Benjamin Péret, Claude Lévi-Strauss ou Roger Bastide às terras “não cultivadas”. Desenham-se então dois pólos de atração muito po-tentes que vão estruturar de maneira durável o interesse francês pelo Brasil: o Nordeste e a Amazônia, cada espaço funcionando como um celeiro de imaginários com recursos quase inesgotáveis.
A vertente silvícola leva ao índio, às origens do homem, ao primitivo mais rudimentar. Mas ela encarna também a harmonia entre o homem e a mãe natureza, um fragmento supostamente intacto do éden antes da queda. Toda sangria, árvore abatida, estrada aberta…, é vivida como uma violação da floresta virgem e uma transgressão que ameaça levar ao caos o planeta. Hoje ainda, enquanto sobre o tema coabitam as obras doutas e os testemunhos mais ou menos rigorosos, a Amazônia orienta na França uma parte importante da produção editorial, tanto em literatura quanto em ciências sociais e em ciências naturais. Ao discurso antropológico se juntou o da ecologia, com, no seu bojo, a questão das frentes pioneiras e do desenvolvimento, pensado não mais somente em termos de pib, de índices de crescimento, de industrialização, como nos anos 1950–1960, mas também em termos de durabilidade.
A vertente afro-brasileira, do Brasil em preto e branco, mestiço, nordestino, encobre não menos ricos filões, que vão da questão do duplo e do desdobramento, do transe, da fusão, do sincretismo (aqui ainda esquecendo, por vezes de passagem, que o catolicismo não é menos sincrético do que um terreiro de candomblé), à da resistência social e cultural. Os exemplos não faltam, desde o interesse de Péret pelo quilombo de Palmares à ingenuidade sofisticada e popular encontrada na literatura de cordel, da estrutura “feudal” das relações sociais às ligas camponesas… A tradução editorial de uma tal atração é ilustrada em dois “fenômenos” : a publicação de um romance de Jorge Amado, Jubiabá, desde 1938. E a de Casa grande e senzala, em 1952.
Sabe-se da onipresença na França da obra de Amado, a quem o romance brasileiro foi durante muito tempo identificado. Mais de uma trintena de títulos traduzidos, alguns deles duas vezes, e um prazo de espera entre a publicação no Brasil e a sua tradução, em geral, relativamente curto. Independentemente das qualidades intrínsecas da sua prosa e do que ela representou, tal sucesso pode ser posto em correlação com a “preferência” nordestina (para a parte brasileira) da “Croix du Sud”, coleção latino-americana fundada por Roger Caillois, na Gallimard, nos anos 1950. É lá, aliás, que a grande obra de Gilberto Freyre foi acolhida. Do mesmo modo que os franceses ignoravam os escritores paulistas do modernismo e liam Jorge Amado, também ignoraram (até 1998!) o equivalente modernista de Casa grande e senzala (1933) : Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (1936).
Esse tropismo tropical francês, para quem o Brasil raramente des-ce mais abaixo do que o Rio de Janeiro, muitas vezes manteve à parte o “resto” do país, diga-se, entre outros, seus centros econômicos: Belo Horizonte, São Paulo, o Sul… Quer deploremos, quer justifiquemos, é um fato, que novas circunstâncias por vezes ajudam a atenuar: a construção de uma capital e as audácias arquiteturais que ela permitiu valeram alguns privilégios a Brasília, da mesma forma que o impacto do Fórum social de Porto Alegre projetou a cidade na cena mundial (e editorial). Mas temos de convir que essas distinções são pontuais, isoladas, e que não se inscrevem num interesse mais amplo para a região. A semelhança para consigo, que os franceses buscavam no início do século xx, tornou-se motivo de indiferença em relação a lugares reputados como demasiado europeus.
Quentes e frios
Atrás desses efeitos de massa, escondem-se ainda muitas nuanças e ensinamentos sobre a nossa maneira de ler o Brasil. A história da recepção da obra de Jorge Amado continua, sob este aspecto, um bom barômetro de certas alterações climáticas. O interesse por sua obra foi precoce e sem decair após 1945. Porém a tradução de seus romances sofreu uma interrupção de dez anos, de 1960 a 1970, ano em que a Stock publicou a versão de Conrad Detrez de Os pastores da noite. Dando continuidade a esse lançamento, o editor vai publicar no total quatorze títulos de Amado, dentre os mais populares. Muitos serão editados em livros de bolso, ou na “Bibliothèque cosmopolite”, também em formato pequeno. Às explicações internas à obra (tomada de distância do Partido comunista, guinada de Gabriela, cravo e canela…) acrescentam-se sem dúvida fatores externos, como a exacerbação das tensões leste-oeste, as conseqüências da revolução cubana, o golpe de estado militar de 1964 no Brasil… De maneira sintomática, o lugar das traduções não literárias, voltadas para as questões políticas, religiosas, de sociedade, vai aumentar durante uma década, da metade dos anos sessenta à metade dos setenta, como se a politização crescente e a rigidez do período tornassem mais difícil o desvio literário e o trabalho de simbolização que ele representa.
No mesmo tempo, a França acolheu um bom número de exilados brasileiros, em cujas fileiras estavam vários universitários. Até 1980, data da anistia que vai permitir-lhes o retorno ao país, a presença deles vai sensibilizar às questões brasileiras os intelectuais franceses engajados à esquerda, semeando aqui e lá, para o futuro, alguns grãos de atenção à literatura nacional. É de fato a partir do fim dos anos setenta que o trabalho de tradução das atualidades e dos clássicos literários brasileiros vai se intensificar. A criação, em 1979, das Éditions Métailié, onde é aberta a primeira coleção verdadeiramente brasileira da edição francesa, assinala uma reviravolta importante nas mentalidades.
Na verdade, até então o domínio brasileiro estivera associado a conjuntos mais vastos: latino, lusófono, ibérico, latino-americano, nos quais muitas vezes tínhamos tendência a dissolvê-lo. Conseqüência de uma lenta e progressiva maturação, essa autonomização foi decisiva. E foi fortalecida alguns anos mais tarde pelo primeiro evento das “Belles étrangères”, que o ministério da Cultura francês decidia consagrar aos autores brasileiros, em 1987, depois pelo Salão do Livro de Paris de 1998, onde o Brasil era o convidado de honra e, claro, os eventos de 2005.
Escalas
E hoje, em que pé estamos? O balanço de uma avaliação não poderá ser feito senão por contraste. Um trabalho considerável foi realizado, especialmente após 1980, para recuperar o tempo perdido quando era possível. Encontra-se nos catálogos dos editores os grandes romances de Machado de Assis, quase toda a obra de Clarice Lispector, as traduções dos principais títulos de João Guimarães Rosa… Se adicionamos as obras brasileiras e os romances franceses consagrados ao Brasil, os livros de arte ou sobre a arte, os manuais e livros práticos, o volume é mais ou menos equivalente do número de títulos incidindo sobre os diversos aspectos da sociedade brasileira, a soma total atingindo anualmente, há dez anos (exceto 1998), uma média de cinqüenta referências. A pesquisa francesa sobre o Brasil, no contexto moroso que já se conhece, resta, portanto, dinâmica.
Contudo numerosos sinais de fraqueza estrutural se manifestam: a presença em livros de bolso diminui, a rotação dos catálogos se acelera, sobretudo nas grandes editoras, que se imagina submetidas a imperativos de escala. Elas renunciam a blocos importantes de seus fundos brasileiros, sem nem sempre trazer sangue novo, ousar desbravar a produção contemporânea. É assim que hoje, dos quatorze títulos de Jorge Amado na Stock, não restam mais do que três disponíveis. A 10/18 ou a Livre de Poche queimaram consideravelmente a “gordura”, sacrificando uma parte da obra de Moacyr Scliar ou de Rubem Fonseca, por exemplo. O trabalho de sentinela, zelando pela renovação dos autores e das gerações, e pela consolidação do fundo clássico, daqui para diante parece entregue principalmente às estruturas pequenas ou médias, Métailié, assim como Chandeigne que aparece nos anos 1990, Corti, Rivages, Eulina Carvalho…, com as deficiências e as dificuldades que se adivinha para fazer com que o livro encontre seus leitores, mas também muito de fé e de determinação. É por fim esse setor que relativamente assume os maiores riscos da descoberta e a quem devemos o fato de termos visto publicados na França mais de uma dezena de novos talentos.
Ora essa tarefa é fundamental porque estamos sem dúvida num momento crucial onde os nomes que há pouco estavam na primeira linha recuam sem que a maioria desses novos rostos se imponha junto ao público. As lições do “Brasil, Brasis” são, a esse propósito, iluminadoras: a curiosidade dos “mediadores”, jornalistas, bibliotecários, livreiros, agentes culturais…, é grande e bem real. À altura do deficit de informações e de pontos de referências, em certos campos muito insuficientemente preenchido pelas obras de referência : faltam por exemplo uma história da arte, uma síntese atualizada e disponível sobre o cinema, ferramentas lexicográficas respondendo às necessidades das trocas… No domínio científico, a excelência brasileira não é, sem dúvida, suficientemente visível. É também em que pode se revelar útil nosso repertório: chamar a atenção para os recursos existentes, mas dispersos, mal recenseados; agrupar as forças que já existem para seguir em frente e, eventualmente, melhor identificar as “lacunas”.
Desde as “Belles étrangères” de 1987, diversas iniciativas privadas e institucionais pesaram de maneira importante para encorajar os editores a se abrirem para o Brasil. No domínio artístico, várias manifestações ofereceram a ocasião de realizar catálogos e de deixar assim um registro escrito de encontros efêmeros. Essas ocasiões motivam também empreendimentos editoriais conexos : foi uma exposição consagrada a Jean-Baptiste Debret que suscitara o Découverte-Gallimard Brésil, épopée métisse. Mesmo limitados no tempo, esses tempos fortes são úteis e indispensáveis à política de diversidade cultural defendida pela França. Tal voluntarismo deve ser, sem nenhuma dúvida, defendido e buscado, sem se privar de analisar os freios e os pontos de resistência que permanecem. A situação cada vez mais precária do ensino da língua portuguesa, tanto no secundário como no superior, não pode, por exemplo, deixar de ser um alerta, pois é também por esta via que se recrutarão os “leitores”, os “passadores” e os “tradutores” de amanhã, que fazem já hoje, aqui ou lá, cruelmente falta.
Autorizando-nos a utopia, poderíamos por certo considerar que todos esses esforços somente terão verdadeiramente dado seus frutos quando se tiver passado do intervencionismo individual ou institucional (necessário) à atenção “natural” e “ordinária”. Ao contrário dos auxílios públicos que sustentam profissões e redes já existentes, as políticas de traduções ex nihilo, que as autoridades brasileiras foram, de maneira compreensível, tentadas a praticar nos anos 1940, ou as iniciativas assimiláveis à auto-edição, que se perpetuam por vezes, são na maioria dos casos destinadas ao fracasso, pois, em despeito de seus eventuais méritos, elas não levam em conta os caminhos france-ses da leitura. Na matéria, a experiência indica que é a ação conjunta e solidária de todos os segmentos do circuito do livro que permitirá transpor uma nova etapa: onde os atores franceses concernidos serão completamente convencidos, sem condescendência nenhuma, que não tinham e não têm senão benefícios ao manter trocas regulares e aprofundadas com a sociedade brasileira e com aqueles que decidiram escrevê-la. Esperamos aqui acrescentar, ao nosso nível, através desta bibliografia, uma pedra ao edifício e realçar o que muitas e valiosas intervenções ajudaram a erigir.
Michel Riaudel
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